Emma
Numa tarde a mãe de Emma fez uma pergunta espontânea. Gostas mesmo muito da escola, não é? Ou é um escape? És muito empenhada e reparo que andas quase sempre entusiasmada. Isso é verdadeiro?
Estavam ambas sentadas a tomar um sumo de morango no jardim numa tarde quente de junho. Emma olhou espantada para a mãe, riu e respondeu sinceramente que não gostava nada da escola.
- Não gosto da escola, não. A escola onde estou é ótima, tem um ambiente que protege os alunos, os professores amam o que fazem, tenho bons colegas, mas eu detesto aquilo. Sou empenhada porque encontrei um meio de suportar aquele ambiente...
- Júlia anuiu com um aceno de cabeça.
- A única alternativa era entusiasmar-me pelo estudo e participar ativamente nas atividades da escola e criar atividades novas. Engajar-me. Caso contrário, seria uma perda de tempo e como iria eu ocupar o tempo? Tornar-me-ia uma fora da lei? Seria uma falhada?... Isso seria muito pior. O teu exemplo ao ires para a universidade depois de adulta também me incentivou, mãe.
Júlia sorriu. Ambas davam-se muito bem.
- Eu tinha as minhas suspeitas...
- Pois... és psicóloga, não és?
Júlia soltou uma gargalhada.
- Com arquitetaste esse plano de superação?
- Foi ainda no 7º ano que comecei a imitar a forma de estudar da melhor aluna da turma. Certo dia à hora do almoço, ouvi-a a conversar com outras colegas e ela dizia como era a forma como estudava. Ela era-me uma pessoa indiferente, mas copiei o esquema dela e tornei-me uma das melhores alunas da turma.
- Cá em casa sempre foste incentivada a estudar tanto por mim como pelo teu pai... rematou Júlia.
- Sim, é verdade, mas o esquema dela tinha algumas particularidades interessantes.
- Tais como?
- Ela explicava a si mesma as matérias, era sua auto explicadora, criava fichas de leitura, lia ainda mais do que eu, enfim... e até dava aulas aos alunos com mais dificuldades...
- Estou a perceber.
- Quando cheguei ao 9º ano, outra colega de turma falava muito das proezas da irmã mais velha, que era atleta, e das atividades que ela fazia na escola secundária. Tomei nota disso e quando entrei para esta escola para o 10º ano comecei a aplicar essas notas.
- Comecei a criar mesas redondas para discutir alguns problemas que surgiam, escrevi e organizei peças de teatro, visitas de estudo e viagens e convívios, a par com as atividades que esta escola já tem...
- Sim, eu sei. Até algumas das tuas atividades já fazem parte do currículo da escola, filha. É mérito teu.
- Eu sei. Mas foi tudo criado na base do desespero... para ocupar a mente. E consegui realmente que estes 3 anos passassem num ápice.
- Sim, o tempo passou a correr. E tens a tua graduação daqui a dois dias...
- Ui, que bom!
Riram as duas.
- Vai ser uma festa e tanto! Com é tão bom virar as costas a tudo isso... Mas também devo dizer que este último ano foi o mais fácil. Apesar do estudo intenso e das atividades terem reduzido, foi muito mais suportável.
- E isso deve-se a?...
- A ser o último ano de purgatório. E... à meditação... acho eu...
- Sem dúvida... e ao aumento do teu ki, a tua energia vital.
- Por outro lado... também estou com vontade de deixar este país...
- Sim, mas no fim do verão vais para a Europa estudar teatro, audio visuais e literatura...
- E psicologia analítica.
- Sim, claro, rematou Júlia com um sorriso. Eu também não vejo a hora de chegar lá... E temos quase tudo embalado.
- Tão bom pensar nisso agora! E levar os cães e gatos connosco também.
- Com certeza! A família não se descarta! acrescentou Júlia.
Riram as duas.
Emma tinha um irmão gémeo que estudava em outra escola que seguia um estilo europeu de ensino. Ia seguir economia. Ele não gostava da sociedade americana e nesse ano regressava à Europa também. O pai era o único que gostava do país, mas estava decidido a não regressar mais. Júlia aproveitou o melhor que o país tinha para lhe dar, concluiu os estudos em psicologia e artes.
Tinham ido morar para os EUA por causa do emprego do pai. Há 8 anos que residiam no país numa casa tipicamente americana num bairro de classe média alta.
Todos os anos iam de férias para a Europa.
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